terça-feira, 10 de julho de 2012

A CUT e por que o julgamento do Mensalão deve ser político


No dia 09 de julho próximo passado o Sr. Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), defendeu o argumento que o julgamento do mensalão não pode ser político. Caso isso aconteça, “... nós questionaremos, iremos para as ruas”, pois, “isso poderia colocar em risco os avanços sociais conquistados pelo país após a chegada do PT ao poder”.

 Lula, "pai" do mensalão


O argumento apresentado pelo Sr. Vagner é falacioso por um motivo simples: o mensalão é resultado do método de governo implantado pelo Sr. Lula da Silva quando na presidência ou, se preferirem, estratégia de economia política. Se teve função política, portanto a natureza do mensalão é política e o tipo de julgamento deve acompanhar a natureza do ato em julgamento.

A demonstração é simples: cada ato do executivo que necessite de aprovação do legislativo se situa em escala de valores entre 0 e 1. Se o ato do executivo for rejeitado, seu valor será 0; se for aprovado 1. No caso de negociação, o valor oscilará entre 0 e 1, dependendo do poder de dar e receber das partes envolvidas e dos consensos alcançados.

O elemento que determina o valor recebido pela proposição do executivo, claramente de natureza utilitária, é diretamente proporcional aos interesses do eleitorado representado pelo parlamentar, embora subordinados ao pograma de atuação do partido a que pertença. Se o ato do executivo se ajusta aos interesses defendidos, então recebe aprovação; caso contrário, entra em negociação.
A estratégia presente no mensalão é simples: substitui-se os interesses do eleitorado pelo interesse monetário na atuação parlamentar.
Quanto maior o valor ofertado, menor o risco de rejeição do ato do executivo. Desvincula-se o parlamentar de sua base de eleitores e o atrela ao poder governante, repetindo-se o processo com tantos parlamenteres quanto necessários para garantir a sistemática obtenção do valor máximo (1) às propostas do executivo.

Na aparência, a índole democrática do governo é mantida: hipoteticamente, o parlamentar permanece na defesa dos interesses de seus eleitores. Subjacente à aparência, e contradizendo-a, o executivo transforma-se em governo ditatorial: impõe sua vontade pelo poder econômico à parte do Parlamento que leva em consideração apenas seus interesses de índole monetária.

Moralmente, tanto executivo quanto legislativo enganaram e usurparam a vontade do verdadeiro detentor do poder político: o conjunto dos cidadãos.

Ora, uma das maiores conquistas do Brasil dos últimos anos, em termos sociais, foi exatamente o restabelecimento da liberdade política. Daí, inclusive, dar-se a alcunha para a atual Constituição Federal de “Constituição Cidadã”.
O PT, ao chegar ao poder e adotar a corrupção como estratégia de governo, ao contrário do que afirma o Sr. Vagner Freitas, colocou em risco os avanços sociais conquistados até então, por que os desvirtuou e os transformou em meios para implantação de projeto de poder partidário.

Não restam dúvidas que a CUT é um ator social, mas de relativamente pouca representatividade popular fora da esfera dos militantes sindicais e, ao tentar impor sua vontade, adota a mesma estratégia de ação do governo Lula, de supressão das ideias discordantes.


Por que o julgamento político é mais adequado que o criminal


O processo criminal, por afetar diretamente os direitos do cidadão, como restringir a liberdade, é cercado de cuidados rigorosos na aplicação de penalidades. As provas devem ser contundentes e, na possibilidade de dúvidas, adotam-se as medidas que penalizem o mínimo possível o réu ("in dubio pro reo", expressão latina que significa "na dúvida, a favor do réu"). Além disso, se condenado e previsto na legislação, substitui-se a pena privativa da liberdade por penas alternativas, como a prestação de serviços à comunidade.


Ora, no caso dos mensaleiros, parece haver um certo consenso público de que essas pessoas devam ser banidas da vida política brasileira. Condená-las criminalmente e, seja em função de penas leves ou atenuantes legais, em pouco tempo retornarem às disputas por cargos eletivos soaria como verdadeira afronda à moral e aos bons constumes. O julgamento político parece apto a alcançar condenações efetivas sem mergulhar nas tecnalidades e detalhes complexos do processo penal (lembremos: no berço da democracia, a Atenas antiga, o maior castigo de um político julgado prejudicial ao ambiente social era o desterro - afastamento por dez anos de toda e qualquer atividade pública).

Outra vantagem do julgamento político reside na hipótese de, se condenados, alcançar-se o senhor que fez da corrupção estratégia de governo, o Sr. Lula da Silva. Se os mensaleiros agiam no interior do governo e em benefício do governo, pela noção de "accountability" alcança-se o principal beneficiado dos desmandos. Esta noção aponta para a necessidade ética do governante prestar contas e responsabilizar-se, perante aos cidadãos, por todos os atos praticados por e em seu nome.

Post scriptum:

Reportagem publicada em 14/07 pelo portal IG sob o título "Falhas da Procuradoria já livraram Collor e mantém esperança de réus do mensalão", onde se lê "falhas e inconsistências em peças de acusação em ações no Supremo Tribunal Federal (STF) mostram que impunidade no caso mensalão não deve ser descartada" confirma o acerto nos argumentos acima defendidos de que o julgamento do mensalão deve ser político.

Apenas a título de esclarecimento, o julgamento político, se adotado, deverá considerar como primeiro critério de julgamento os danos sociais causados pelo mensalão, representados no clamor da sociedade contra o acontecimento.
Os critérios técnicos aparecerão como subordinados aos critérios políticos. Exemplo recente de julgamento político, ainda que na esfera das políticas públicas, encontra-se na reportagem da Folha de São Paulo: Anatel deixa critério técnico em 2º plano para punir operadoras