Em filosofia moral,
qualquer fato pode ser valorado como certo ou errado, correto ou
inadequado, em dois níveis de análise: análise de primeira ordem e
análise de segunda ordem.
Na análise de primeira
ordem valora-se, basicamente, o fato em si mesmo.
Na análise de
segunda ordem situa-se o fato no interior de um sistema coerente de
princípios e regras, de modo que possa ser entendido e compreendido
em sua variada gama de implicações e correlações.
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| foto: Portal UOL |
A atual greve dos
policiais na Bahia e sua tentativa de expansão para o Rio de Janeiro
se presta ao exame de como os governos dos dois estados, e de um modo
geral de todos os estados brasileiros, concebem suas atuações
enquanto representantes democraticamente eleitos. Obviamente, aqui
está-se a considerar a análise de segunda ordem, que foge aos
particularismos dos movimentos.
Um primeiro conceito a
ser analisado é o de segurança pública, ou controle da violência.
O elevado número de
homicídios, superior a uma centena, demonstra o quanto o termo
“segurança pública” está associado à “repressão pela
força”. Ausente a repressão nas ruas, na figura do policial
militar, explodiu a “vontade de matar”.
Inexiste, na
administração pública, a visão de que “segurança”, em países
democráticos, repousa na percepção individual de que a esfera de
atuação individual encontra limites nas esferas de atuações dos
concidadãos. Cada pessoa pode agir e influir na sociedade na medida em que, pela força ou coação, não seja impedida e não impeça a
ação e atuação dos outros. Essa percepção tem mais de duzentos
anos e foi elaborada pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau em
seu conceito de autogoverno pelo cidadão.
O mesmo Rousseau
apontou os caminhos para sua concretização: pela educação. Mas
não a educação técnica, enquanto preparação para obtenção de
renda, mas pela educação moral, que prepara e ensina os indivíduos
para a vida em sociedade. Entretanto, a percepção que se tem no
Brasil Contemporâneo é que, para os órgãos governamentais, a
educação para a cidadania é quase piada, por que “não gera
melhores e maiores consumidores”.
Um segundo conceito
extraído do movimento grevista é o de que funcionários públicos
da área de segurança não são vistos como atores imersos na
“condição humana” como os demais cidadãos, mas atores
“robotizados” a cumprirem ordens na forma de autômatos. Mesmo a
segurança da população fica em segundo plano quando comparado a um
evento o maior, o carnaval.
O carnaval, e a
possibilidade de algum estrago nos interesses econômicos que o
movem, foi o verdadeiro centro de preocupação dos governantes.
Entre o bem estar geral, significado primeiro de qualquer governo
democraticamente eleito (pelo menos em teoria) , e o atendimento de
interesses particulares de natureza econômica, este último
predomina na mentalidade pública brasileira.
Entende-se, então, por
que a educação para a cidadania é “piada”: cidadãos
desenvolvem percepções críticas, enquanto súditos socialmente
controlados pela força incorporam os discursos dos governantes e
submetem-se docilmente a eles, como se essas ideias fossem as suas
próprias.
Enquanto isso, o Brasil
avança economicamente, mas socialmente mantem-se no patamar da
proclamação da República, logo após a abolição (formal) da
escravidão.
